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#BAVI - Rivalidade que extrapola os limites

Estou preparado para ser xingado, diminuído, execrado e linchado publicamente... Divirta-se!

15 de abril - 2020 às 17h14
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Fotos: Globo Esporte // Arquivo pessoal

Daniel Pinto

O futebol, de fato, está enraizado na cultura brasileira. Todos sabem disso: Ruy Castro, Tostão, Marcos Gutterman, Romário, Xico Sá, Seu Zé da esquina, meu tio boleiro, até sua avó que não gosta de esporte. Historicamente, o futebol quebrou barreiras e permitiu que o preto e o pobre pudessem ter destaque e ascensão social. Num país tão injusto, que faz um esforço enorme para negar a herança da escravidão, esse já é um feito mais do que louvável. Mas, além disso, como nenhum outro esporte, o futebol é capaz de desenvolver o sentimento de pertença e alimentar sonhos de milhões de crianças que sobrevivem na miséria. 

Ô, véi, você é Bahia ou Vitória? Quem é de Salvador, certamente, já se deparou com esse questionamento em algum momento da vida. Eu sou Bahia, desde moleque. Me identifico com a história do clube que nasceu pra vencer. Prefiro acreditar que foi uma escolha consciente, mesmo com o assédio de parte da minha família rubro-negra. Quando criança assistia aos jogos na zona mista da Fonte Nova. Foi lá, inclusive, que tive a dimensão real dos conceitos de respeito ao próximo e convivência pacífica. Pirraça sempre existiu e sempre existirá. Mesmo nos dias de torcida única nos estádios... Oxalá! Assim como também existe frustração. Como apagar da memória a inauguração da arena? Impossível! Sinto até a garganta seca novamente! 

Já adolescente, mantive, por muito tempo, acordo de cavalheiros com um velho amigo apaixonado pelo rival: firmamos o trato de assistir aos principais jogos dos nossos times no estádio, no coração da torcida mandante. Por medida de segurança, o intruso sempre estava à paisana. Infiltrado, vi muitos jogos do Vitória no Barradão. Como também tivemos o privilégio de testemunhar partidas memoráveis do Esquadrão na velha fonte ou em Pituaçu. Talvez por isso, pra mim, é completamente normal admitir os méritos do Leão da Barra.  

Entre os torcedores do Bahia, a regra é nunca mencionar a palavra Vitória, independente das circunstâncias. É sempre o triunfo que nos garante três pontos. Essa máxima não é exclusividade da torcida. Dirigentes do clube, jogadores e a imprensa especializa adoram fazer a média com a nação fanática. Mas, cá entre nós, tem algum sentido nisso? Como uma palavra tão bonita e carregada de significados nobres pode ser transformada em pecado capital? Não parece racional, nem mesmo razoável. Ainda mais pra mim que tenho a língua portuguesa como ferramenta de trabalho e sou filho e irmão orgulhoso de duas Victórias (lê-se Vitória mesmo, o “c” é mudo).

Agora, minha filha acabou de nascer. Apesar de ter apenas dois meses de idade, Maria Victória ganhou produtos oficiais do Esporte Clube Bahia e (acreditem) já me ouviu tocar o hino do clube. Entretanto, alguns desavisados-alucinados já me censuraram: Vitória por quê? O que é isso, campeão? Sua filha vai torcer por vice, tá maluco?... E se torcer pro rival, qual o problema? Vou ter que abandonar minha filha? Vou viver amargurado? Que loucura! 

Dia desses ouvi de amigo da época da escola que ele cancelaria o plano sócio torcedor se o Bahia apoiasse a criação da torcida LGBT. “Não tenho nada contra, mas aí já é demais, né! Cada um na sua... Não tenho que conviver no mesmo espaço que essa galera”, justificou [?]. É como se não houvesse homossexuais entre os torcedores do Bahia. Será possível? Ou todo tricolor é homem, hétero e chicleteiro? Chega a ser insano! Mas, a dificuldade de aceitar e conviver com o diferente não é exclusividade do mundo do futebol. Na verdade, infelizmente, é um câncer em nossa sociedade patriarcal, excludente e insensível ao sofrimento dos desfavorecidos. 

Acabei de lançar meu primeiro romance. NALGUMLUGAR é fruto de muito tempo de vivência, pesquisa e experimentação. O futebol, fatalmente, tem presença marcante na vida dos personagens principais e no contexto geral. Quando escrevia, pessoas bem próximas, me criticaram por conta da parcialidade em relação ao Bahia e pelo tratamento dispensado ao Vitória. Refleti bastante sobre o assunto e assumi a responsabilidade de desprezar o politicamente correto. A literatura não pode ser refém da objetividade, tal qual o jornalismo. Diante de tudo o que foi exposto, estou preparado para ser xingado, diminuído, execrado e linchado publicamente. Afinal, aprendi com Dona Victória Pinto e com os vergalhões da vida, que a violência é lugar-comum dos desamados e incompetentes! 

Além da independência literária, mantida a preço caro, o alento é a certeza de que corações rubro-negros também hão encontrar valor nesse livro de ficção.  
 


O BAHÊÊAAAA BROCOU: Aproveite e leia capítulo especial de NALGUMLUGAR


Nuvens-de-açúcar   
                                                                                                                                                    
“A gente precisa vencer o jogo em casa pra na semana que vem levantar a taça no lixão”.
Foi o que disse Raul ao irmão, de forma pejorativa e mal educada, quando andavam em direção à Fonte Nova ao lado do pai e de alguns amigos da Turma Tricolor.  

“Vai ser moleza! Cê vai ver”, completou cheio de confiança. Vestia o uniforme branco com mangas azuis e listras vermelhas. Nas costas, 10. 

Henrique, o mais novo, sempre acreditava no seu melhor amigo, que também exercia as funções de mestre e protetor. Astorzinho, como de costume, já em água. Os meninos nem ligaram: estavam excitados com o primeiro jogo da final do Campeonato Baiano de 1998 e se divertiam entre as milhares de figuras que circulavam perto da estátua do rei.                                                               

“Hoje vamo ganhar de goleada”.                                                                                                                                
                  “Vai ser três de Uéslei e dois de Robson Luis”.                                                                                                
                           “Amanhã vai ter rubro-negro chorando no pé do caboclo”.                                                                                                                                               “Vamo dar um chocolate neste time de puta”.           
                                                             “BORA BAHÊÊAAA, MINHA PORRA”.                                                                                                                                   
O clima de empolgação contagiava a torcida, como era comum nos dias de jogos na velha Fonte. Raul e Henrique, embasbacados, comiam pipoca e já estavam de olho no sorvete e no rolete de cana. No momento em que o hino do clube começou a tocar numa barraca do lado de fora do estádio, os pivetes se deram conta de algo assustador: 

 

Somos a turma tricolor,
Somos a voz do campeão,
Somos do povo um clamor,
Ninguém nos vence em vibração!
Vamos, avante Esquadrão!
Vamos, serás o vencedor!
Vamos, conquista mais um tento!
Bahia! Bahia! Bahia!

“Cadê seu pai?”, perguntou Raul.                                                                                                                                                                               
“Hã! Meu pai o quê?”, respondeu.                                                                                                                                                                                             
“Cadê ele? Você viu por aí?”.                                                                                                                                                                                          
“Tava aqui agora”.                                                                                                                                                                                                                                                                                              
Enquanto a galera passava a catraca e buscava assento nas arquibancadas de cimento, os irmãos ficavam ainda mais aflitos. Foi de Henrique a iniciativa de segurar a mão do mais velho para que não se perdessem um do outro. A bola começa a rolar e o técnico Evaristo de Macedo, sentado no banco de reservas, nem imagina que duas crianças de 8 e 11 anos estão sozinhas, com medo e de mãos dadas nas imediações da Ladeira da Fonte.                                                                                                       

Raul assobiava uma melodia qualquer com ritmo descompassado. Não conseguia se concentrar. Enquanto isso, o jogo começa pegado, mas o Bahia controla o meio-campo com Uéslei e Bebeto e sai em velocidade pelas pontas, graças à destreza de Robson Luís. Mais de 40 minutos se passaram e a partida caminhava para o intervalo. Raul, o mais velho, tinha vontade de fazer xixi, mas estava disposto a se sacrificar pelo caçula.                                                                                       

“Eu posso até mijar nas calças, mas não largo você, não, viu”.                                                                   

Comovido e apreensivo, começou a chorar e contraiu o rosto junto ao corpo do primogênito. Soltaram as mãos por alguns instantes, apenas pelo tempo de um abraço. Depois do reconforto, foi de Henrique a proposta de buscar socorro.                                                                       
“Vamo falar com alguém que estamos perdidos... Já sei! Vamo pedir ajuda”.                                                           

E assim foi feito. Depois deste momento de clareza celestial (que causou uma reviravolta na vida da família), eles abordaram o primeiro ambulante que passou por perto.

“Oi, moço! Meu nome é Raul e esse é meu irmão... Não chore não, Henrique! A gente veio ver o jogo com nosso pai. Mas, ele sumiu. Você pode nos ajudar?”.

Pouco antes, o vendedor de algodão doce atendia um jovem casal e cumprindo a função, abaixou a cabeça em direção à pochete para passar troco: avistou aos seus pés dois erês. Numa fração de segundos, o tempo de uma piscada de olhos, os encantados sumiram. Incrédulo, girou a cabeça para esquerda e avistou dois vultos atrás de Raul e Henrique. Não tirou mais os olhos dos irmãos e foi até eles determinado. Mesmo na correria do trabalho e em meio à multidão, o vendedor de nuvens-de-açúcar acolheu e conduziu os irmãos em segurança até o módulo policial na Joana Angélica. 

“Não tenham medo: vocês não estão sozinhos”, disse antes de deixá-los e desaparecer no crepúsculo, entre as últimas luzes do dia e as primeiras sombras da noite. Em estado de choque, os garotos não tiveram nem a oportunidade de agradecer. Enquanto tomava as providências de praxe, o PM responsável se deu conta de que o jogo já se aproximava do fim e o Bahia vencia o rival pelo placar de 2 a 0. 

“Vai porra”, vibrou o homem fardado de autoridade.
                                                                                           
“Nome do pai? Nome da mãe? Onde moram? Vocês sabem o telefone de casa? Tem alguém lá?”.                                                                                                                                                                 
Ao receber todas as respostas de forma convincente e perceber que os meninos estavam limpos e bem vestidos, resolveu ligar para casa dos pirralhos, ao invés de encaminhá-los para o Conselho Tutelar ou para a Vara da Infância e Juventude. Como a unidade não possuía telefone fixo, o contato foi feito de um orelhão em caráter extraoficial.     

Do outro lado da linha, Tereza.                                                                                                                  

“Estou saindo daqui agora, meu senhor. Vou o mais rápido possível. Obrigada! Meu-Deus-do-céu!!! Eu vou matar esse desgraçado! Não é o senhor, não! Desculpe! Estou nervosa. Obrigada! Muito obrigada mesmo! Já estou a caminho”. 

A mãe, desesperada, pegou a bolsa e saiu. Na saga em busca dos filhos, deu sorte ao avistar um táxi que trazia funcionários de uma empresa do CIA. “Por favor, me leve para o módulo policial na Joana Angélica, em frente à igreja do Sagrado Coração de Jesus. O mais rápido possível, por favor”. 

“É pra já, madame”. 

Apesar do trânsito intenso na BR e nas imediações da Fonte Nova, chegaram (mais ou menos) em 30 minutos. Neste intervalo de tempo, que para os meninos durou uma década, Henrique e Raul continuaram de mãos dadas. Tereza, já abraçada aos filhos, não parava de chorar. Precisou beber um copo d’água para recuperar a voz. Refeita, se concentrou na situação. 

“O que aconteceu? Vocês estão bem? Oh, meu Deus! Raul, Henrique... Meus filhos! Meu Deus”. Só conseguiu recuperar a consciência plena depois de lamber as crias. Tudo foi resolvido rapidamente, sem nenhum protocolo. Com o coração aliviado, a mãe agradeceu mais uma vez ao policial. 

“Que Deus te abençoe e dê livramento para toda a sua família! Serei eternamente grata ao senhor”.

Não voltaram pra casa. Nunca mais pisaram os pés naquele famigerado apartamento. No dia em que o Bahia assegurou o 41° título estadual, Tereza decidiu recomeçar a vida longe daquele que causava tanta dor e aflição. 

“Me perdoem, meus filhos! Me perdoem”.



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