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DA LAMA AO CAOS: 25 ANOS

Lorena Calábria dá detalhes do seu livro de estreia sobre o álbum lendário da Nação Zumbi.

25 de novembro - 2019 às 09h31

POR LORENA CALÁBRIA / Revista TRIP

“Sábado de carnaval. O ano, 2010. Fui escalada pela Band para comandar a transmissão ao vivo direto de Olinda. Uma van levava nossa equipe até o local. Avançamos pouco. Logo se tornou impossível trafegar por aquelas ladeiras já abarrotadas de foliões. Estávamos parados há algum tempo quando percebi o bando cercando o veículo. Gente coberta de lama, da cabeça ao pés.

Um rosto se aproxima da janela e repete meu nome. Peço ao motorista que baixe o vidro. Não o reconheço. Só vejo dois olhos arregalados no meio da confusão. 'Sou eu, Hamlet' – disse, agarrando no meu braço. De fato, era ele, Hamlet. O hospitaleiro rapaz de nome shakespeareano que me atendeu no balcão da Bodega de Véio, ali mesmo em Olinda, dias atrás. Aperto sua mão lamacenta e suplico: 'Ajude a gente a passar! Temos que entrar no ar em meia hora'. E assim o caminho foi aberto graças ao Bloco Mangue Beat – o bloco da lama. Desde 1996, os foliões se lambuzam com argila molhada antes de saírem pelas ruas de Olinda cantando músicas eternizadas por Chico Science. 

Diante daquela visão, como uma epifania, me veio a constatação: Da lama ao caos já não era apenas um álbum. Havia se transformado em algo maior. Era conceito, ideia, dínamo, anima. E todos que desse espírito se imbuíram são capazes de operar milagres enquanto coletivo.

Anos mais tarde, ao receber o convite da editora Cobogó para escrever um volume da coleção O Livro do Disco, não tive dúvida. Escolhi Da lama ao caos com o intuito de esmiuçar o universo que existe no disco de estreia de Chico Science & Nação Zumbi. E, para minha surpresa, havia muitas camadas a serem reveladas.

Foram dois anos de pesquisa e mais de 60 entrevistados, entre parceiros, amigos, produtores, familiares e profissionais. Busquei outros personagens envolvidos na história, além dos protagonistas. Fatos singelos, curiosos, anteriores a origem do disco, ganharam outro significado. Da infância de Chico, as primeiras festas de DJs que deram origem à cena mangue, até a desbravadora viagem ao sudeste, culminando com o processo de gravação no Rio de Janeiro, a temporada carioca, o lançamento do disco e o que aconteceu diante de tanta expectativa. O acaso, que permeia muitas passagens dessa história, também colaborou para a primeira turnê internacional, bancada pela própria banda.

Meu maior desafio foi construir uma narrativa que transportasse o leitor para aquela época. É um livro-reportagem com algumas passagens em estilo ficção. Mas, garanto, totalmente baseada em fatos reais – por mais absurdos que pareçam.

Como jornalista, acompanhei toda a trajetória do disco. Com anos de profissão, depois de testemunhar o surgimento do rock nacional nos anos 80, nada me empolgava muito na década seguinte. Já na primeira audição do Da lama ao caos veio o baque: todo tipo de som que me interessava – rock, samba, funk, soul, jazz, hip hop – estavam ali, convivendo com ritmos pernambucanos ainda desconhecidos para mim. Mas foi no primeiro show, em 1994, como plateia, que senti estar diante de uma revolução. Música, dança, identidade visual. Periferia, tecnologia, regional, universal. Chico Science & Nação Zumbi virara minha pátria. Minha e de mais um bando.
 


E, desde 1994, os caminhos continuam se abrindo com Da lama ao caos”. 
 

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