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Entrevista Diogo Menezes Oliveira

Leitura indispensável para quem gosta de mangalarga e celebra a cultura de uma raça genuinamente brasileira!

07 de março - 2014 às 14h23
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Fotos: Renato Sampaio / Sertão Baiano

“O mangalarga é o cavalo da família”. A definição leva a assinatura de Diogo Menezes Oliveira, zootecnista, empresário e criador de cavalos da raça mangalarga marchador. Ao longo do bate-papo - realizado no Haras VIP, em Irecê, debaixo de um pé de seriguela - Diogo falou sobre a história e principais características do mangalarga, revelou quais foram os “desbravadores” da raça na região, mostrou-se otimista com a realização da 16ª Expoagri e desmistificou a rivalidade entre criadores de mangalarga e quarto de milha. “Cavalo é função”, sentenciou. Além disso, deu dicas para novos criadores e garantiu que o mangalarga possui poderes místicos. “Sempre falo que o cavalo tem o poder de atrair as pessoas boas. Quando não se enquadra, o próprio cavalo trata de levar para longe”. Leitura indispensável para quem gosta de cavalos e celebra a cultura de uma raça genuinamente brasileira!
 

Por Daniel Pinto 

 


Como nasceu seu interesse pelos cavalos?


Acho que nasceu comigo, né. Desde criança, em Jacobina, já tinha esse fascínio. Tanto que ficava torcendo para chegar logo o fim de semana para poder montar.


Essa paixão já era pelo mangalarga?


Ainda não. O cavalo era pé duro mesmo, como chamam. Cavalo esquipador que fosse macio na sela. Depois, fui morar em Salvador e ficava numa expectativa danada para chegar logo as férias, que naquela época duravam mais de dois meses. Em seguida, fiz faculdade de Zootecnia, que é relacionada à animais. Depois de formado, tive oportunidade de comprar o meu primeiro mangalarga marchador.


Com que idade?


Animal registrado, com uns 26 anos, mais ou menos.


Você herdou essa paixão pelos cavalos de alguém da família?


Não. Meu pai era comerciante e criava gado. E para lidar com gado, precisa de cavalo, né. Então, desde pequeno meu sonho era ter um haras (risos). Ainda não tenho, né.


Ainda...


Tenho apenas alguns animaizinhos aí, menos de dez. Lembro que com oito anos eu adorava ir para argolinha. Não pelo evento em si, muito mais pela cavalgada. Quanto mais longe a argolinha, mais eu gostava (risos).


E o mangalarga, como surge na sua vida?


Na infância mesmo. Sempre gostei de cavalo esquipador e a raça que mais se enquadra neste perfil é o mangalarga. O quarto de milha é um cavalo mais áspero, mais duro na sela, não tem como você viajar. O quarto de milha é um cavalo para você entrar em pista: vaquejada ou corrida.


Especificamente, o que mais te chamava atenção no mangalarga?


O andar machado, a comodidade para quem monta. O mangalarga tem sempre um apoio no chão. Por isso, a maciez na sela, o que é bem diferente do cavalo trotão.


Essa característica distingue o mangalarga de todas as outras raças?


Tem outras raças, mas no Brasil é o mangalarga. Se não me engano, no mundo existem seis raças machadoras.


O mangalarga é uma raça genuinamente brasileira?


Sim, sim. D. João XI trouxe para o Brasil um cavalo da raça Alter Real, que foi doado ao Barão de Alfenas, que cruzou com éguas nativas, digamos. Daí nasceu um cavalo com andar excepcional. Entretanto, o nome mangalarga tem duas histórias: de “manga-larga” em função do andamento das “mangas largas”; e uma fazenda no Rio de Janeiro chamada “mangalarga” de onde saíram muitos exemplares desta nova raça ainda no século XIX. Hoje, em termos gerais, o Brasil tem o terceiro maior rebanho de equinos do mundo. Perdemos apenas da China e México. Só a Associação do Mangalarga Marchador tem mais de 250 mil animais registrados e mais de 30 mil associados.


Como se deu a introdução do mangalarga em Irecê?


Os primeiros criadores aqui da região foram Jovino e Noé, isso em 1989. Quem pode falar bem sobre isso é *Carlinhos, uma lenda viva que participou desde o início da história do mangalarga em Irecê. Os primeiros a chegarem foram dois animais de nome Níquel e Mostarda.



* Carlinhos é criador da raça mangalarga e tratador do Haras VIP.


O mangalarga se adaptou bem à região?


Sim, claro! Inicialmente era apenas cavalo para usuário. O que é isso? Uma pessoa compra para montar os fins de semana pelo prazer da cavalgada, não com o intuito de criar. Mas, se adaptou muito bem, sim. O mangalarga é criado no sul, norte, nordeste, do Oiapoque ao Chuí, digamos assim. O mangalarga é brasileiro de fato.


E quando podemos falar em criação em Irecê?


Criação e reprodução só depois... Eu chequei aqui em 2004. Criação mesmo só a partir de 2008. Aí veio Calvert, Anibal, César, Carlinhos, Anderson, Alan. A partir de então surgiram os haras. Foi um boom! Na verdade, neste período, a criação do mangalarga explodiu em todo Brasil, graças ao empenho de Magdi Abdel, presidente da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador (ABCCMM).


Existe um marco histórico em Irecê?


O que marcou bastante foi a união de pessoas apaixonadas pelo mangalarga marchador. Em 2008, nos unimos e fomos acompanhar a Exposição Nacional do Mangalarga, em Belo Horizonte (MG). A gente olhava e dizia: quando teremos um cavalo de pista como esses? Foram sete amigos que sonharam o mesmo sonho.


Os desbravadores...


Exatamente! Desbravadores mesmo! Esse episódio é um marco e acabou acendendo uma luz na cabeça da gente: vamos investir nisso aí e vê no que vai dar.


Vamos falar do mangalarga como negócio: é um “produto” rentável? Gera bons dividendos para a Bahia e para o Brasil?


É um excelente negócio, sem dúvida alguma! O cavalo mangalarga gera por ano mais de três milhões de empregos diretos e indiretos. Existem exemplares que custam mais de R$ 3 milhões. Um animal de marcha picada, o Elfo do Porto Azul, tem cinco donos e vale mais de R$ 800 mil. Aqui, no comércio para usuários, você vende um potro entre R$ 6 e R$ 10 mil.


Como é o processo de reprodução aqui na região? Cobertura ou inseminação?


O mais tradicional é a cobertura natural. Mas, também se faz inseminação. E, este ano, vamos fazer a transferência de embrião.


Mesmo? Em que ambiente?


Pode ser num haras qualquer, contanto que seja criado um local específico e tenha acompanhamento de profissionais.


Neste processo, a meta é o melhoramento genético da espécie?


Exatamente! Como o custo é caro, você vai pegar um cavalo excepcional e uma égua de exceção, que produziu campeões, e gerar um indivíduo diferenciado.


Queria que você falasse um pouco sobre a importância do tratador.


O tratador e o treinador são peças chaves na vida de um animal. Às vezes, o tratador e o treinador são a mesma pessoa. O que trata, faz a limpeza da baia, coloca ração e escova o cavalo, muitas vezes é o mesmo que monta. Essa figura é uma peça chave: ele pega o animal xucro, sem tratamento e inicia a relacionamento com o homem. Logo depois da cura do umbigo, começa a socialização. Com seis meses, já pode colocar um cabresto. Agora, para montar, só com dois anos e meio, três anos. Aí entra o treinador, que monta, tira os vícios do animal e coloca no andamento.


Antes da socialização, em geral, o mangalarga é muito arisco?


Não, não! O mangalarga é um cavalo muito dócil, é o cavalo da família.


Como é a cultura, a confraternização em torno do mangalarga?


Assim, como falei, o mangalarga marchador é uma raça que faz amigos, não envolve dinheiro, cifras e nem competição a qualquer custo. Sempre falo que o cavalo tem o poder de atrair as pessoas boas. Quando não se enquadra, o próprio cavalo trata de levar para longe. O mangalarga, realmente, é uma raça da família. Minha filha adora, sabe o nome dos cavalos e minha mulher até tatuou o símbolo da raça.


Existe mesmo a rivalidade entre criadores de mangalarga e quarto de milha?


Dizem, né. Mas, não me preocupo com isso, não. Cavalo é função. Jamais você vai pegar um mangalarga marchador para colocar para correr, tão pouco vai usar o quarto de milha numa disputa de marcha. Cavalo é função!


Além de um bom tratador, quais os cuidados para garantir a qualidade de vida de um mangalarga?


A raça entra pela boca, como se diz. Na verdade, essa sentença virou um chavão de todas as raças. Ou seja: alimentação é o principal. Todo cavalo precisa de ração adequada, forragem, volumoso e minerais.


Antes do nosso bate-papo, você falava sobre a formação de uma Associação de Criadores de Mangalarga da região. O que falta para concretizar este projeto?


Temos a ABCCMM, com sede em Belo Horizonte. Nos estados, formam-se os núcleos. Em Salvador, temos o núcleo da Bahia. A gente está querendo montar... Na verdade, vamos montar o Núcleo dos Criadores do Sertão e Chapada Diamantina.


 

Envolve quantas cidades? Quantas pessoas?


São mais de 30 criadores das cidades de Jacobina, Miguel Calmon, Irecê, Riachão do Jacuípe, Morro do Chapéu e outros municípios.


E qual a importância deste núcleo sertanejo?


O fomento, a troca de experiências, cursos, exposições, profissionalização e segurança para criadores, tratadores e animais.


Qual a expectativa para a 16ª Exposição Agropecuária da Região de Irecê (Expoagri), que este ano será realizada no início de maio? Temos exemplares com condições de competir em pé de igualdade com os animais de todo o Brasil?


A expectativa é muito boa, já que o evento amadurece a cada ano. Além disso, choveu, né. Com certeza, o fim da estiagem vai impactar na qualidade da exposição e no volume de negócios. Também tem a criação do Núcleo do Sertão, que traz uma excelente perspectiva para os criadores da terra. Em termos de título e pista, nossa maior referência é Calvert, do Haras Irecê. Calvert tem um cavalo chamado Luxo de Mairi, que foi campeão nacional e reservado campeão dos campeões. Realmente, temos que tirar o chapéu! É um cavalo que veio pra cá logo depois de apartado. Portanto, é um cavalo de Irecê (momento de descontração). Luxo de Mairi é um cavalo da nossa região e levou o nome de Irecê para todo o Brasil.


E, para finalizar, quais as dicas para um criador iniciante?


Iniciar com animais de boa genética, neste aspecto estamos bem servidos aqui na região. Se preocupar mais com andamento do que com a pelagem; tomar todos os cuidados na escolha do tratador/treinador e alimentação; se não tiver uma fazenda com condições adequadas, procurar um haras que forneça um ambiente saudável para o pleno desenvolvimento do animal. Depois disso, é celebrar com a família e amigos e desfrutar do prazer proporcionado pelo mangalarga. 

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