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Pescado #xingling: 1/3 do peixe congelado consumido na Bahia vem da China

País é o maior exportador de pescados para o estado, responsável por 33,7% dos peixes que entram por aqui.

26 de março - 2018 às 10h56
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CORREIO / Raquel Saraiva*

Se você já garantiu seu peixe para a Semana Santa, talvez nem imagine quantos quilômetros ele percorreu até virar moqueca ou ensopado, prato principal, no feriado da Paixão de Cristo. Um terço dos peixes importados para a Bahia vem da China - polaca do Alasca, filé de bacalhau, bacalhau do Pacífico encontrados nos refrigeradores dos supermercados viajam mais de 15 mil quilômetros antes de chegar até sua mesa. A China é o maior exportador de pescados para o estado, responsável por 33,7% dos peixes que entram na Bahia. Neste período do ano, a estimativa é de incremento na venda de pescados, mariscos e crustáceos em 35% no estado, de acordo com a Bahia Pesca,  empresa do governo estadual com finalidade de incentivar a cadeia produtiva do setor. 

Em 2017, 1.850 toneladas de pescados, mariscos e crustáceos foram importados para a Bahia no total - o valor foi 11,4% menor que no ano anterior. Ainda liderando o ranking, a participação dos chineses nas importações também caiu 17,4% entre 2016 e 2017.   O quadro era esperado, de acordo com Arthur Souza Cruz, coordenador de comércio exterior da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI). “Houve uma queda nas importações por causa da questão econômica - esses peixes têm relação direta com a renda e com o consumo. Como houve redução, consequentemente, o consumo caiu”, ele explica.

No mercado também se destacam as importações oriundas do Vietnã. O panga, peixe criado em fazendas, é o principal tipo exportado pelo país asiático. “O Ministério da Agricultura tem dificultado a liberação do panga nos portos por causa dos padrões de qualidade que não estavam sendo cumpridos pelo Vietnã”, diz Eduardo Mateus, diretor comercial da importadora Araujo Mateus. Ainda assim, só entre 2016 e 2017, a fatia de participação do país no mercado baiano aumentou em 212,5%, passando de 24 toneladas para 75. O CORREIO entrou em contato com o Ministério da Agricultura mas não obteve resposta. A empresa de Mateus importa bacalhau da Noruega - uma das preferências nacionais  entre os peixes de fora que mais circulam no mercado brasileiro. Mas nem todos podem pagar pelo produto europeu.

Litoral x produção 

A Bahia tem o maior litoral brasileiro, com 1.181 km de extensão. “Mas a produção de peixes no estado não atende à demanda de consumo”, afirma Adriano Vasconcelos, gerente de comércio exterior da Netuno Internacional. O número de importações de pescados é maior que o de exportações. Em janeiro e fevereiro deste ano, o valor arrecadado com exportação foi US$ 118 mil,  muito aquém dos US$ 2,8 milhões investidos na importação de peixes e frutos do mar no mesmo período. Ainda que a pesca extrativista não seja expressiva no cenário baiano, a produção de peixes em cativeiro tem destaque no estado, que hoje é o quinto maior polo produtor de tilápia do Brasil, segundo a Associação Brasileira de Piscicultura. Em 2017, 22.220 toneladas do peixe foram cultivadas no estado - o que corresponde a 81% dos peixes produzidos.

“Somos os primeiros produtores de tilápia no Nordeste. Ela é produzida em cativeiro”, afirma Rodrigues sobre o peixe de água doce. O gerente de assistência técnica da Bahia Pesca explica que, dentre os peixes de água salgada, os que são capturados em maior quantidade, e que são mais consumidos pelos baianos, são o vermelho, o olho de boi, a cavala e o badejo. A preferência do baiano também é grande, no entanto, por peixes gringos. Mesmo a tilápia, produzida em grandes quantidades no estado, e que foi o terceiro produto de piscicultura mais exportado pela Bahia em 2017, é trocado por um peixe estrangeiro na mesa dos baianos. E não é por causa da qualidade.

“O peixe importado muitas vezes sai mais barato que o peixe produzido no estado”, diz Arthur Souza Cruz, da SEI. “O consumidor vai optar pelo que é economicamente mais vantajoso, mesmo preferindo o peixe local. Os peixes importados, mesmo com transporte e tarifas, conseguem atingir preços menores”, explica Rodrigues, da Bahia Pesca. A aposentada Evandir Andrade, 62 anos, escolheu economizar na Semana Santa e optou por comprar o peixe no supermercado. “Foi ótimo, comprei no cartão e dividi em três vezes”, conta ela, que comprou 5 kg de panga, 2 kg de “bacalhau chinês” e “outro que não lembro o nome de 9,90 o kg”.

‘Nativos’, cavalinha e sardinha têm preço em conta 

A maior procura por peixes ‘nativos’, no entanto, ainda é a aposta de muitos comerciantes. “Iremos trabalhar, principalmente, os mais populares, como a palombeta, cavalinha, sardinha, castanha, corvina e merluza”, diz o gerente comercial Luiz Maciel, da rede atacadista Mercantil Rodrigues, que espera um incremento de 20% na venda de peixes por causa do feriado. Presidente da colônia de pescadores Z1, com sede no Rio Vermelho, Branco explica que o Brasil oferece peixes para todos os gostos e bolsos. “Aqui já tem peixe suficiente, não somos favoráveis a vender peixes de outros países. Os mais procurados são o vermelho, o badejo e a pescada-amarela, que vem do Pará e do Rio Grande do Norte. Mas o sabor é de acordo com o bolso”, ele brinca.

Perguntado se os soteropolitanos optam por peixes gringos para economizar, Branco retruca com veemência. “Aqui em Salvador o comércio deles não é muito bem recebido, porque temos peixe fresco e barato, aí quem tem poder aquisitivo menor também procura peixe de qualidade, como corvina, galo, cavalinha e sardinha”.Branco conta que o preço do kg do peixe vermelho varia de R$  26 a 30, mas que deve aumentar até para R$ 40 na quinta-feira (29), enquanto o valor da sardinha varia entre R$ 7 a R$ 10 o kg, e o da cavalinha entre R$ 10 e R$ 12. “Não recomendamos pra ninguém esses peixes de fora, porque têm qualidade duvidosa”. Para fugir dos preços mais altos, a produtora cultural Laura Pires, 59 anos, comprou o peixe 15 dias antes do feriado no Mercado do Rio Vermelho.

“Comprei peixe e camarão na semana retrasada, geralmente compro bem antes, porque quando chega perto os preços aumentam”. Ela comprou o peixe vermelho inteiro e fresco por R$ 35 o kg. “Eu não conheço os peixes de fora, prefiro ir no conhecido, sempre compro pescada ou vermelho”, diz. Adriano Viana, gerente comercial de perecíveis da rede varejista GBarbosa, prevê uma disputa equilibrada na venda de pescados. “A expectativa é crescer 11% nas vendas de peixes, um volume acima de 400 toneladas, sendo 50% de itens importados da Noruega, Portugal, Argentina e China”.

Adriano conta que para a Semana Santa os consumidores buscam principalmente filés de merluza e polaca, corvina, cavalinha, arraia em postas e bacalhau.  Optando por peixes do estado ou de outros países, uma coisa é certa: os baianos vão continuar comendo muito peixe durante todo o ano. “O estado tem média de consumo de mais de 10 kg por habitante por ano”, diz Eduardo Rodrigues, gerente de assistência técnica da Bahia Pesca. De acordo com levantamento do Sebrae em 2017, Salvador é a cidade brasileira que mais consome peixes no Brasil.

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Lagosta é principal item de exportação do estado

Europeus, asiáticos e norte-americanos desfrutam da lagosta baiana. O produto é a principal exportação do estado - e a participação do crustáceo no mercado de peixes e frutos do mar vem aumentando.  Só em 2017, 748 toneladas de lagosta fresca ou congelada ‘made in Bahia’ foram exportadas. O valor corresponde a 88,4% de todas as exportações na categoria de peixes e frutos do mar do estado. Em 2016, as lagostas corresponderam a 69,8% dessas exportações.

Entretanto, a captura do animal não é realizada por pescadores nativos. “Sobretudo no Extremo Sul da Bahia, há grande produção de lagosta. Muitos barcos de fora, como do Ceará e do Espírito Santo, vêm para fazer essa pesca, porque tem frota mais especializada para esse tipo de atividade”, diz Eduardo Rodrigues, gerente de assistência técnica da Bahia Pesca. Por outro lado, a fatia de exportação de peixes no estado diminuiu. Em 2016, 30% das exportações eram de peixes frescos ou congelados. Já no ano passado, o valor caiu para 11,6% - e a expectativa é que o cenário continue desfavorável. 
 


“Nesse ano acredito que não haja melhora, talvez só para a exportação de subprodutos como a pele, farinha e escama, mas para o produto como o filé, atualmente o mercado brasileiro se mostra mais atraente”, diz Adriano Vasconcelos, gerente de comércio exterior da Netuno Internacional. Ele atribui o resultado à concorrência com a China e outros países asiáticos. “Nós vendíamos 100% do filé para os EUA, mas a concorrência fez o preço cair muito, o produto deixou de ser competitivo. Tivemos que adaptar nossa operação diante das adversidades”, explica Adriano.

*Supervisão do chefe de reportagem Jorge Gauthier e edição de Mariana Rios

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