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Tiros no coração de Irecê

Essa publicação contém vídeo com imagens fortes e não deve ser vista por crianças ou pessoas sensíveis à violência.

04 de dezembro - 2017 às 17h37

Daniel Pinto 

Praça do Feijão, Irecê, Bahia, início da madrugada. Um grupo de pessoas circula distraidamente na calçada pintada de amarelo. O último da fila é um homem de camisa preta e bermuda listrada. Um carro se aproxima do grupo, faróis ligados, estaciona. O cara da bermuda listrada adianta o passo, saca uma arma, corre em direção ao alvo, ele já não é o último da fila. Tiros disparados no coração de Irecê: um corpo no chão. As pessoas se assustam e correm. Enquanto isso outro homem sai do carro estacionado e também saca uma arma. Com o revólver em punho, corre em direção ao grupo. Mas, ao presenciar os disparos e ver a vítima estendida, ele volta tranquilamente ao veículo, que foi deixado com a porta do condutor aberta. 

Enquanto isso, mais tiros no coração de Irecê: outro corpo no chão. Diferente da outra vítima, essa se contorce de dor no meio da pista e esboça uma reação instintiva. O cara do carro sai sem alarde. Mas, ainda consegue presenciar outros disparos. O algoz da bermuda listrada se aproxima, aponta o revolver à queima-roupa. Tiros no coração de Irecê: dois corpos no chão.  

A cena descrita acima, que mais parece roteiro da violência de uma grande metrópole, aconteceu, de fato, na madrugada desta segunda-feira (4) numa praça margeada por duas pistas que cortam a região central da cidade. O vídeo foi registrado pelo sistema de monitoramento da Polícia Militar. A motivação do crime ainda não foi descoberta, tão pouco se sabe sobre os personagens envolvidos. Mas, a cidade, antes tão pacata, começa a se acostumar com a violência. Hoje a preocupação era pra saber se as vítimas dos disparos tinham envolvimento, se tinham morrido, se já haviam cometido delitos. “Prestaram um serviço à sociedade”, cheguei a ouvir. 
 


Na Praça do Feijão, cartão postal localizado no coração de Irecê, funcionam lojas, igrejas, escritórios, órgãos públicos. Além disso, esse centro comercial que interliga a cidade também abriga residências. Aí me pergunto: e se o assassino errasse o alvo? E se a bala atingisse outra pessoa? E se houvesse uma troca de tiros? Se mais pessoas morressem?! Inocentes, talvez... Qualquer um dos mais de 70 mil habitantes do município podia estar na linha de fogo: seja vindo de um culto religioso, do aniversário do pai, saindo de uma balada com o namorado, indo pra casa, comprando chocolate para a esposa ou leite para os filhos numa adega que funciona até mais tarde. Todos somos vítimas em potencial da violência que tomou conta do Estado.

A grande questão não é se os personagens envolvidos tinham ligações com o mundo do crime. O que preocupa é como tantas armas de fogo estão nas mãos de assassinos. O que causa espanto é como um indivíduo é capaz de executar uma pessoa a sangue frio, na presença de tantas testemunhas, diante dos “olhos” da Secretaria de Segurança Pública. Os tiros disparados na Praça do Feijão atingiram o coração de Irecê. A cidade sangra e se contorce de dor no chão. Muita gente não enxerga ou simplesmente tapa o nariz para não sentir o fedor da podridão. Tudo isso me fez lembrar de uma frase estampada no encarte do disco Chaos A.D, do Sepultura.

“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar”.

Martin Niemöller – símbolo da resistência ao nazismo.
 
 

Vale a reflexão!
 


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