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Israel sem a ‘consolação da inocência’

Passei toda a juventude como admirador do Estado de Israel. Mais propriamente, do sionismo —  movimento de apátridas e de indesejados perseguindo uma utopia nacional. Uma ação coletiva de deserdados em busca de um Estado. Na guerra dos seis dias, a minha mocidade só teve olhos para a façanha militar, que nos redimia, a nós europeus, da vergonha do Holocausto. Nessa altura o outro lado quase não existia — era território estranho e profundamente desconhecido: os árabes. Foi um longo caminho de aprendizagem que os sobreviventes se tornaram ocupantes.

Quando visitei Israel pela primeira vez fiquei encantado com o país moderno que aquela gente industriosa tinha conseguido fazer naquela terra tao inóspita. Até que visitei um campo de refugiados — e conheci o outro lado. Porque existia um outro lado. Um outro lado que ficou sem nada, sem casa, sem terra e sem dignidade. Essa foi a primeira vez que me perguntei como era possível que aqueles soldados israelitas, que eu tinha visto antes sorrindo e apanhando sol nas esplanadas de Telaviv, se comportassem daquela forma tão violenta com os palestinianos que haviam perdido tudo. A mesma pergunta faço hoje. O que é que aconteceu naquele país para que os ministros israelitas de hoje sejam capazes de dizer que “não há civis inocentes em Gaza”?

Alan Finkielkraut, filósofo e judeu francês escreveu recentemente que “pela primeira vez na nossa história, devemos fazer face ao ódio sem ter a consolação da inocência”. Sim, nenhuma inocência. Gaza e agora o Líbano não são apenas cenários de violência e guerra, mas de pura maldade, de pura imoralidade. Uma limpeza étnica de grande amplitude. O primeiro-ministro israelense toma a palavra para se insurgir com a falha de segurança na divulgação de um vídeo com soldados israelitas filmados a torturar um palestiniano detido, mas nada diz sobre as sevícias cometidas. A barbárie instalou-se. E, pouco a pouco, normaliza-se.

Esta semana regressaram a Portugal dois médicos que foram a Gaza em missão humanitária, movidos pelas melhores intenções de ajudar os necessitados. Foram tratados como terroristas, presos e deportados. Mas não foi suficiente — o ministro da Segurança Nacional israelense decidiu insultá-los e humilhá-los com a divulgação de um vídeo em que aparece protegido por soldados e vociferando com os ativistas presos, algemados, e agachados no chão. O mundo viu um escândalo. Um judeu, em qualquer ponto deste mundo, deve sentir vergonha.

Mas a pergunta não é sobre humilhação, que só existe quando os humilhados a aceitam, mas sobre o ódio. De onde vem este ódio? O que pretendem construir com este comportamento? Dizem que destruíram o Hamas, que destruíram o Hezbollah, que enfraqueceram o Irã. Não acredito em nada disso — tudo isso virá de novo. E a galope. O pesadelo de Israel são os palestinos. Havia palestinos no passado, quando chagaram os primeiros israelitas, há palestinianos no presente e haverá palestinos no futuro.

O que esta a acontecer de novo é a solidão de Israel. O que resta a este governo é usar o velho truque de usar o antissemitismo para desqualificar qualquer critica à política israelita. Chamar terrorista a todo o mundo. Quem quer ajudar as vítimas é terrorista; quem lembra a necessidade de se voltar à solução de dois estados é terrorista. Todo o mundo é terrorista. Esta pulsão de destruição, esta cegueira de morte e de violência afeta, como nada no passado, a identidade e a imagem de Israel no mundo. Israel esta só, como nunca esteve no passado.

E o pior, o que mais temo, é que tudo isto não seja apenas consequência de um governo em deriva democrática. É muito apaziguador atribuir a responsabilidade da selvajaria desta guerra a Netanyahu, ao seu governo e à sua sobrevivência política. Mas temo que não seja assim. As pesquisas dizem que não é assim. Temo que os herdeiros de Yitzak Rabin já não existam. Temo que tudo isto seja exatamente o que o povo judeu quer que seja feito — matá-los a todos.

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