Escolher discos preferidos nunca é um gesto neutro. Aliás, eu nem tenho o costume de fazer listas porque tem tanto disco bom sendo lançado que certamente deixarei de fora álbuns que me acompanharam ao longo do ano por puro esquecimento. Mas voltando a falta de neutralidade nestas escolhas, vale dizer que toda escolha mistura afeto, escuta atenta e percepção de tempo. Em 2025, a música brasileira mostrou mais uma vez sua capacidade de se reinventar sem perder raízes, dialogando com o presente, com o corpo, com a política, com o amor e com a memória. Esses sete álbuns não são apenas grandes trabalhos artísticos: juntos, eles ajudam a desenhar um retrato sensível do Brasil de hoje.
Dominguinho — Dominguinho (Jota.Pê, João Gomes e Mestrinho)
Há muito tempo um projeto não alcança a unanimidade de forma tão bonita como este. Três artistas da mesma geração, mas com trajetórias diferentes se encontram para homenagear Dominguinhos não pela reverência solene, mas pela continuidade viva. O disco é um abraço entre o forró, a canção popular e o afeto nordestino. Em tempos acelerados, Dominguinho propõe escuta, simplicidade e profundidade, além de mostrar como a tradição segue sendo um lugar de futuro.
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Um Mar Pra Cada Um — Um Mar Pra Cada Um (Luedji Luna)
Luedji segue sua investigação radical sobre o amor, agora mergulhando ainda mais fundo na subjetividade, nos traumas e nos desejos. O disco é denso, sofisticado e espiritual. Levou o Grammy Latino e mistura jazz, neo-soul e uma escrita corajosa. Tudo isso faz de Um Mar Pra Cada Um um dos trabalhos mais honestos e maduros da música brasileira recente e um retrato potente de uma artista que não teme se expor.
Recomendo a audição da minha entrevista com a Luedji Luna no VOZES DA VEZ:
Coisas Naturais — Coisas Naturais (Marina Sena)

Marina Sena reafirma seu lugar como uma das vozes mais populares e inventivas da sua geração. Aqui, o pop é sensual, solar, mas também refinado. Coisas Naturais é, na minha opinião, o melhor disco da curta carreira da artista e fala de desejo, corpo e cotidiano com leveza e identidade própria, mostrando que é possível dialogar com o grande público sem abrir mão de personalidade artística.
Recomendo a audição da minha entrevista com a Marina Sena no VOZES DA VEZ:
Afim — Afim (Zé Ibarra)

Zé Ibarra consolida sua trajetória solo com um disco que aposta na delicadeza, na palavra bem colocada e na canção como espaço de intimidade. Afim é um álbum de silêncios, respiros e emoções sutis, daqueles que crescem a cada audição. Representa uma nova geração que respeita a tradição da MPB sem nostalgia. Depois de conhecer o sucesso e os grandes públicos ao lado da banda Bala Desejo e também de Milton Nascimento, Zé apresenta um trabalho introspectivo para ser visto em lugares menores sem atenção fragmentada.
Novo Mundo — Novo Mundo (Arnaldo Antunes)

Arnaldo Antunes segue fazendo o que sempre fez de melhor: pensar o mundo através da palavra. Novo Mundo é político sem ser panfletário, poético sem ser abstrato. Um disco que observa o Brasil, o tempo e o humano com lucidez e sensibilidade reafirmando Arnaldo como um dos grandes pensadores da nossa música.
Recomendo a audição da minha entrevista com o Arnaldo Antunes no VOZES DA VEZ:
O Mundo Dá Voltas — O Mundo Dá Voltas (BaianaSystem)

Se existe um grupo que traduz o Brasil contemporâneo em som, é o BaianaSystem. O Mundo Dá Voltas é explosivo, político, ancestral e futurista ao mesmo tempo. O disco reafirma a potência da música de matriz africana, do coletivo e da rua — e lembra que a música também é ferramenta de consciência e transformação. Russo Passapusso é das mentes mais brilhantes da minha geração além de ser um dos grandes front man nacionais de todos os tempos.
EITA — EITA (Lenine)

Depois de anos sem lançar um disco de estúdio, Lenine retorna com uma obra que é manifesto e liberdade criativa. EITA mistura som, imagem, Nordeste, tecnologia e poesia. É um disco de artista maduro, que não repete fórmulas e segue inquieto. Um presente para a música brasileira e um lembrete de que grandes criadores seguem abrindo caminhos.
Recomendo a audição da minha entrevista com o Lenine no VOZES DA VEZ:
Esses sete discos mostram que a música brasileira segue múltipla, corajosa e profundamente conectada às suas raízes, sem medo de experimentar, misturar e se reinventar. Em um mundo de excesso, eles nos convidam à escuta. E, para mim, é isso que define um grande disco: aquele que fica, que atravessa e que ajuda a entender quem somos agora.