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Defender a taxação dos super-ricos é uma questão de justiça, não de ideologia

Charge reprodução

 

Discutir a taxação dos super-ricos não é, ou não deveria ser, um debate reduzido a ideologias políticas. Não se trata de um delírio comunista ou de um plano de governo da extrema esquerda. É, antes de tudo, uma pauta de justiça social, responsabilidade coletiva e sobrevivência democrática. Quando um país enfrenta níveis alarmantes de pobreza, desigualdade e violência, insistir na neutralidade jornalística ou na imparcialidade política diante desse tema não é equilíbrio: é conivência. É, como já alertava Desmond Tutu, “ficar do lado do opressor”.

A distribuição desigual da carga tributária é um dos pilares da desigualdade social brasileira. Enquanto os mais pobres pagam proporcionalmente mais impostos sobre consumo e renda do que os mais ricos, os detentores de grandes fortunas, heranças e lucros são historicamente poupados pelo sistema tributário. Esse desequilíbrio mina a capacidade do Estado de prover serviços básicos, reproduz a pobreza e alimenta um ciclo de exclusão que se estende por gerações.

A lógica é simples e cruel: onde há pobreza extrema, há ausência do Estado. E onde o Estado não chega com educação, saúde, moradia e oportunidades, chega a violência. O Brasil vive cotidianamente os efeitos dessa equação. A segurança pública, muitas vezes discutida com ênfase em estratégias policiais, tem sua raiz muito mais profunda e estrutural na desigualdade social. Uma criança que cresce sem escola de qualidade, sem saneamento, sem alimentação digna, sem acesso a atividades culturais ou esportivas, está muito mais vulnerável ao aliciamento pelo crime organizado não por escolha, mas por falta de alternativa.

Portanto, taxar os super-ricos é, paradoxalmente, uma política de segurança pública. É uma forma de financiar políticas sociais que previnam o crime em vez de apenas combatê-lo. É garantir que as futuras gerações não herdem apenas a miséria e a exclusão dos seus antecessores. Não se trata de punir quem enriqueceu, mas de redistribuir parte da riqueza acumulada para gerar oportunidades reais e duradouras para todos.

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. Segundo dados da Oxfam e do IBGE, os 5% mais ricos da população concentram a mesma renda que os demais 95%. Essa concentração extrema de riqueza não é fruto apenas do mérito individual é, muitas vezes, resultado de estruturas históricas de privilégio, exploração e isenção fiscal. E isso também é culpa dos governos que hoje batem na tecla. A taxação de grandes fortunas, lucros e dividendos, hoje praticamente intocáveis no Brasil, é uma medida urgente para corrigir esses desequilíbrios.

No entanto, a resistência ao debate sobre a taxação dos super-ricos costuma vir acompanhada de uma retórica perigosa: a de que discutir esse assunto seria “parcial”, “ideológico”, ou um “ataque à liberdade econômica”. E é aqui que entra o papel da mídia, dos jornalistas e da sociedade civil. Em tempos de desigualdade extrema, assumir neutralidade diante da injustiça é, na prática, reforçá-la.

Quando um veículo de imprensa se recusa a pautar o devido debate sobre a taxação das grandes fortunas sob o pretexto de “imparcialidade”, ele não está sendo neutro: está tomando partido do status quo, do sistema que beneficia poucos em detrimento de muitos. A imparcialidade, nesse contexto, torna-se uma farsa. Como escreveu Bertolt Brecht, “o pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo da vida, o preço do feijão, do aluguel, do remédio, tudo depende das decisões políticas.” E o mesmo vale para a desigualdade fiscal.

O silêncio também mata. Ele mata quando impede o avanço de políticas públicas que poderiam salvar vidas, melhorar a educação, reduzir a criminalidade e gerar empregos. Ele mata quando naturaliza o absurdo de um país onde o trabalhador que ganha um salário mínimo paga proporcionalmente mais imposto do que um milionário que lucra com dividendos isentos. Lucra as custas do suor dos assalariados mínimos. Ele mata quando bloqueia a indignação coletiva que deveria emergir diante de uma injustiça tão óbvia quanto cruel.

É preciso romper com a ideia de que discutir justiça social é coisa “de esquerda”. Responsabilidade fiscal com responsabilidade social não são opostas, são complementares. Um país que pretende crescer de forma sustentável precisa enfrentar a desigualdade como um entrave ao seu próprio desenvolvimento. Taxar grandes fortunas, heranças e lucros exorbitantes não significa demonizar o sucesso. Significa reconhecer que ninguém enriquece sozinho. Há sempre uma sociedade inteira envolvida direta ou indiretamente na construção de qualquer fortuna. Essa sociedade, portanto, deve ter o direito de exigir de volta parte desse sucesso, transformado em políticas públicas que garantam o bem-estar coletivo.

A verdadeira imparcialidade, se é que existe, está em garantir que todas as vozes sejam ouvidas principalmente as silenciadas pela fome, pelo abandono, pela bala. Defender a taxação dos super-ricos não é atacar indivíduos. É questionar um sistema que permite que poucos acumulem bilhões enquanto milhões vivem com menos de R$ 10 por dia. É recusar a lógica do privilégio. É optar por um país mais justo, mais seguro, mais digno para todos.

E, nesse cenário, não cabe mais o silêncio. Quem se cala diante da injustiça, a autoriza. Quem se diz neutro diante da desigualdade, a perpetua. A imparcialidade, quando aplicada de forma cínica e seletiva, torna-se cúmplice. E o Brasil já tem cúmplices demais.

Eduardo Tito é formado em Comunicação Social com Pós Graduação em Gestão de Crise (em andamento) e assessor parlamentar. Escreve voluntariamente para os sites Notícias da Bahia e Pátria Latina. 

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