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Em ruínas, antigo Centro Pan-Americano de Judô completa 11 anos e retrata abandono do esporte na Bahia; assista

O que deveria ser uma referência do esporte, se transformou em um cartão postal de abandono. Sediado em na Praia de Ipitanga, no município de Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), o antigo Centro Pan-Americano de Judô (CPJ) — atual Arena de Esportes da Bahia — completa 11 anos na próxima segunda-feira (28), mas não há muito para se comemorar. 

Quando inaugurado, o objetivo do equipamento era claro: se tornar um CT referência nas Américas, auxiliando na formação de judocas de todo o Brasil. Eram três prédios divididos entre administrativo, alojamento com capacidade para mais de 70 atletas e ginásio. Além disso, as instalações possuíam oito áreas de treinamento, quatro para competição, além de piscina e quadra poliesportiva.

Com tamanho luxo, a expectativa era que o equipamento impulsionasse o judô de tal forma que, até 2020, o esporte seria o segundo mais praticado na Bahia, de acordo com o então presidente da Federação Baiana de Judô (Febaju), o judoca Marcelo Ornelas — atual vice-presidente da Confederação Brasileira de Judô (CBJ).

No entanto, a BNews Premium visitou o local e constatou que, após mais de uma década, a realidade é bem diferente. Apesar do prédio administrativo ainda ser funcional, atualmente, o ginásio — que é o “cartão de visita” do antigo Centro Pan-Americano de Judô — se encontra entregue às traças.

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Alegando altos custos de manutenção — orçados em 1 milhão por ano —, a Confederação Brasileira de Judô antecipou a devolução do equipamento ao governo baiano no fim de 2018. Inicialmente, a entidade iria gerir o Centro Pan-Americano de Judô por 25 anos, ou seja, até 2039.

Imagens internas do ginásio do antigo CPJ | Foto: BNews

Já sob a responsabilidade da Superintendência de Desportos da Bahia (Sudesb), o equipamento foi rebatizado como Arena de Esportes da Bahia e chegou a sediar alguns eventos esportivos ao longo dos anos enquanto o ginásio ainda não estava em estado avançado de deterioração.

No ano seguinte à sua devolução, já sob a batuta do governo baiano, o equipamento chegou até a ser ocupado por integrantes do Movimento dos Sem Terra (MST) em 2019, durante uma marcha que contou com a participação de cerca de 2,5 mil trabalhadores rurais.

De acordo com a Sudesb, atualmente, o espaço possuí núcleos do Projeto de Lutas de Combate, que seguem ativos no prédio chamado espelhado, atendendo mais de 400 alunos em diversas modalidades. Além disso, a Federação Bahiana de Futebol (FBF) mantém sua sede no prédio anexo desde agosto de 2022.

Porém, o ginásio principal foi corroído pelo salitre, o que prejudicou toda a sua estrutura, que não existe mais. O espaço, que suporta duas mil pessoas, se encontra em situação insalubre, já que o material de isolamento acústico do local cedeu e, devido à sujeira e aos dejetos, terminou se transformando em algo que se assemelha à lama.

Confira abaixo as imagens captadas por drones que evidenciam o estado de abandono do ginásio e impedimento da prática de qualquer atividade esportiva no local:

Chegada em tempo recorde e status imponente

Apesar do atual estado do antigo Centro Pan-Americano de Judô, quando inaugurado, a história era bem diferente. Erguido em tempo considerado recorde — apenas nove meses —, o equipamento foi inaugurado no dia 28 de julho de 2014, quando o atual senador Jaques Wagner (PT) ainda era governador da Bahia.

CPJ
Esturutura original do CPJ em 2014 | Foto: Reprodução / CBJ

Construído no terreno do antigo Kartódromo Ayrton Senna, até dezembro de 2018, quando foi devolvido à Bahia já na era Rui Costa (PT), o CPJ era o maior local de treinamento do judô das Américas e um dos maiores do mundo, inclusive, sendo a primeira instalação a ficar pronta com recursos do plano Brasil Medalhas — iniciativa que visava preparar o Brasil para os Jogos Rio 2016.

Ao todo, o empreendimento construído numa área de 20 mil metros quadrados custou R$ 43 milhões, divididos entre governo federal (R$ 19,8 milhões), do governo da Bahia (R$ 18,3 milhões) e da Confederação Brasileira de Judô (R$ 5,1 milhões). Essa última quantia foi investida apenas para equipar todo o centro.

Nos dois primeiros anos de funcionamento, as instalações serviram exclusivamente para o preparo e aprimoramento técnico da seleção brasileira de judô para os Jogos Olímpicos. Além de ser o principal CT da modalidade, antes da devolução, o CPJ sediava assembleias, meetings, campeonatos brasileiros, seletivas e desafios internacionais.

O espaço, projetado na gestão Paulo Wanderley Teixeira à frente Confederação Brasileira de Judô para ser a casa do judô brasileiro e Pan-Americano, foi escanteado na era Sílvio Acácio Borges e começou a ser tratado como elefante branco. O resultado foi uma devolução antecipada alegando altos custos e um imóvel, atualmente, destruído. 

CPJ
Imagem aérea do ginásio do antigo CPJ completamente destruído | Foto: BNews 

Reforma milionária

No entanto, ainda há salvação. A Superintendência de Desportos da Bahia possui planos para resgatar o equipamento. Porém, nem mesmo o planejamento ainda anima o setor. A BNews Premium apurou que a reforma prometida para esse ano deve demorar um pouco mais para sair do papel.

Isso porque a licitação que prevê a execução dos trabalhos foi suspensa no início de junho, devido a “ajustes no instrumento convocatório”, de acordo com a Sudesb.

Inclusive, essa não é a primeira vez que a licitação de reforma da Arena é suspensa. Lançado pela primeira vez em março, logo no mês de maio o certame precisou ser adiado sob a mesma justificativa, conforme dados do sistema ComprasNet — portal de compras eletrônicas do governo da Bahia.

O processo só foi retomado em 18 de junho, após a republicação do edital. O primeiro certame possuía 93 páginas e orçava a obra em cerca de R$ 11,5 milhões (R$ 11.459.205,96). Já a segunda licitação possui 128 páginas e ampliou o valor da reforma em mais de R$ 2,5 milhões, saltando para cerca de R$ 14 milhões (R$ 13.975.912,91). 

Os incidentes atrasaram o início das obras. A previsão inicial é que a reforma dure um ano, contados a partir da assinatura da ordem de serviço. As intervenções, no entanto, ainda não possuem data para começar.

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Imagem lateral da Arena de Esportes da Bahia | Foto: BNews 

O que diz a Sudesb

Questionada pela BNews Premium, a Sudesb informou, por meio de nota, que desde que o antigo Centro Pan-Americano de Judô foi repassado para sua gestão, o equipamento manteve seu objetivo de preservar sua função pública voltada à prática esportiva e à formação de atletas.

No entanto, com o passar dos anos, a estrutura sofreu danos significativos provocados principalmente pelo alto índice de salinidade e pela ação de ventos fortes, devido à sua localização, em frente à praia de Ipitanga”, informou a Sudesb.

Ainda de acordo com a nota, diversas intervenções de manutenção foram realizadas periodicamente, no entanto, “o avanço da corrosão comprometeu de forma significativa e irrecuperável as telhas termoacústicas que compunham a fachada”.

Essa deterioração passou a oferecer riscos à segurança de pessoas e veículos que circulavam nas proximidades, obrigando a Sudesb a fazer a retirada total das placas e à interdição da área”, informou a Superintendência de Desportos da Bahia à BNews Premium.

Sobre a para reforma da Arena de Esportes da Bahia, a Sudesb reforçou que o processo licitatório passou por suspensões motivadas por ajustes no instrumento convocatório e que essas adequações “foram necessárias para garantir maior precisão técnica no escopo da obra, especialmente após a inclusão de novos itens de infraestrutura”.

Foram incluídas a execução de novos reservatórios em concreto armado (inferior e superior), com valor estimado em R$ 408.604,67; e a execução de subestação e instalações elétricas complementares, com custo estimado de R$ 2.155.949,00.

Além disso, a Sudesb ainda informou que, das quatro empresas que seguiram na disputa do certame, duas – Construtora JF Prado Ltda. e o Consórcio MEIR/HAYEK – impetraram recurso, ou seja, apresentaram formalmente um pedido de revisão do julgamento da habilitação e proposta de preços feitos pela Comissão de Licitação.

Conforme previsto na legislação (Lei nº 14.133/2021), a Comissão de Contratação notificou os interessados e abriu prazo legal de três dias úteis para apresentação de contrarrazões. O resultado do certame será divulgado após o encerramento desta fase
processual. Portanto, o processo licitatório encontra-se, nesta data, em fase de análise de recursos administrativos”, informou a Sudesb por meio de nota.

A BNews Premium também tentou contato com a Federação Baiana de Judô e com a Confederação Brasileira de Judô reiteradas vezes para compreender os impactos à prática do esporte na Bahia gerados pela não utilização do antigo Centro Pan-Americano de Judô.

No entanto, em ambos os casos, nenhum posicionamento foi enviado até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto e, em caso de manifestação segura, a matéria será atualizada.

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