Nos conhecemos há 30 anos,
num tempo em que o hoje ainda estava a léguas de distância.
Era um lugar onde os sonhos nasciam da inocência
e do desejo – sem pressa, sem método, sem “como”.
Só certeza.
Só crença.
Só porque.
A gente desenhava futuros
na areia da praia,
no Posto 2, em Santos.
Ela esperava o namorado voltar do surfe.
Mas eu sempre desconfiei:
ela também gostava de ver as minhas ondas.
O fim de tarde era nosso.
Eu largava o longboard cor-de-rosa,
sentava na canga dela
e a gente conversava sobre tudo aquilo
que ainda ia ser.
Ela era do fazer.
Marketing, eventos, realização.
Fazer acontecer, e ela fazia.
Eu, jornalista.
Duas faladeiras.
Duas taurinas.
Nascidas não no mesmo ano, mas com um só dia de diferença,
no mesmo mês,
como se o universo já tivesse combinado esse encontro.
A gente escolheu sorrir pra vida.
E, de um jeito bonito,
a vida sorriu de volta.
Vieram os caminhos, as viagens,
os amores, os recomeços.
Vieram os filhos – um menino pra cada.
Eu fui. E na volta tive que me reconstruir.
Ela soube esperar.
Esperou o amor certo.
E ele veio.
Com sotaque baiano.
Pra ficar.
E ficou.
E ficou.
E ficou.
Porque, pra ela, o amor era isso:
presença, insistência, partilha.
Ela era a cupido da turma.
Inventava encontros, criava histórias,
me mandava prints com entusiasmo:
“Esse é a sua cara, amiga!”
A gente ria.
E ela não desistia, de nada, de ninguém.
Ela era assim:
enfrentava, encarava, seguia.
Enquanto eu chorava, muitas vezes,
ela sorria.
Era o jeito dela atravessar
o que a gente nunca planejou
naquela praia,
mas que a vida, inevitavelmente, entrega.
Porque viver também é isso:
picos e vales.
Quando o sorriso virou dor,
dor física,
ela continuou.
Insistiu.
Lutou.
E, quando silenciou,
foi pra poupar a gente.
Pra poupar a nossa dor.
Ela acostumou mal todo mundo —
porque era luz.
Energia.
Abundância.
Mas a vida tem curvas
que não pedem licença.
E, numa dessas,
o tempo dela aqui se encurtou.
Longe do mar,
longe da nossa praia,
numa tela de celular,
veio a última mensagem:
um apelo contra o feminicídio,
contra a violência que mata mulheres.
Até o fim,
ela pedia amor.
E ela soube amar.
Soube ser amada.
O que as vezes a gente acha que sabe,
mas nem sempre sabe que não sabe.
Ela soube.
Soube ser mãe.
Soube ser filha.
Soube ser irmã.
Amiga.
Companheira.
Eu não sei por que a despedida veio agora.
Esse é daqueles “porquês”
que não têm resposta,
e que a gente nunca aceitaria,
em tempo algum.
É cedo demais.
E eu já estou com saudade
Te amo, Xu.