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Excluídos da história

Dicionário digital reúne verbetes sobre personagens brasileiros pouco conhecidos do grande público. Utilidade pública! Parabéns pelo trabalho!

16 de fevereiro - 2021 às 10h40
Excludos-da-histria

Pesquisa FAPESP

Bruno de Pierro 

Símbolo da resistência negra, a escrava piauiense Esperança Garcia lutou contra os maus-tratos sofridos pelos escravizados em fazendas de algodão no período colonial. Em 1770, endereçou uma carta ao governador da província do Piauí, Gonçalo Botelho de Castro, denunciando os abusos, mas não obteve resposta. O documento, no entanto, é considerado a primeira petição feita no Estado e, em setembro de 2017, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) concedeu a ela o título simbólico de primeira advogada do Piauí. Apesar disso, trata-se de uma figura dificilmente lembrada nos livros de história. 

“Há muitas pessoas marginalizadas e excluídas do cânone da narrativa histórica, que sempre privilegiou os feitos de homens brancos de classes dominantes”, afirma a historiadora Cristina Meneguello, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp). Ela é uma das responsáveis pelo dicionário virtual Excluídos da história, que reúne 2.251 verbetes sobre personagens nacionais pouco ou nada mencionados em livros didáticos. 

Além de Garcia, figuram nomes como o da bailarina fluminense Mercedes Baptista (1921-2014), primeira mulher negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. “Ao acessar fatos relacionados a personagens pouco conhecidos, é possível extrair informações novas e detalhadas sobre contextos mais amplos marcados por pobreza, desigualdade social e preconceitos de toda ordem”, avalia a historiadora.

Lançado em 2020, o dicionário é fruto de trabalho colaborativo envolvendo alunos e professores do ensino médio e fundamental das várias regiões do país e foi produzido na fase final da 11ª Olimpíada Nacional de História do Brasil (ONHB), em 2019. No total, 6.753 estudantes de escolas públicas e privadas, divididos em grupos de três, se encarregaram de escolher os personagens, resgatar suas trajetórias e redigir os verbetes com a ajuda de professores.

Na maioria dos casos, os biografados são reconhecidos no âmbito local ou regional. “Ou seja, são sujeitos que conquistaram alguma importância em cidades de pequeno e médio porte, sem alcançar projeção nacional”, diz Meneguello, uma das coordenadoras da ONHB. É o caso do mecânico José Valdetário Benevides Carneiro (1959-2003), nascido em uma família conhecida pela brutalidade em Caraúbas, no Rio Grande do Norte. Diferentemente dos parentes, era pacífico e dedicava-se à oficina. Em 1991, aos 33 anos, foi preso injustamente, acusado de roubar um carro, sendo inocentado cinco anos depois.

A paz durou pouco. Apontado novamente como autor de um crime que não cometera, Valdetário Carneiro, como era conhecido, decidiu fazer justiça. Formou uma quadrilha e assassinou seu acusador, por vingança. Não parou por aí: foragido, orquestrou a morte do prefeito de Caraúbas e, por oito anos, planejou assaltos a bancos, tornando-se protagonista do que viria a ser chamado “novo cangaço”, em referência ao banditismo promovido no início do século XX pelo bando do pernambucano Virgulino Ferreira da Silva (1898-1939), o famoso Lampião.

Morto em uma emboscada policial em 2003, o mecânico-cangaceiro ficou registrado apenas na memória local, lembrado como um homem que cometia crimes para reparar injustiças. Aos mais necessitados, doava dinheiro roubado dos ricos. Mais do que curiosa, a trajetória do “justiceiro” potiguar fornece novos elementos para entender o vínculo entre violência e certa forma de heroísmo que se manifesta há séculos no sertão nordestino.

Outro exemplo é o de Alzira Soriano (1897-1963), considerada a primeira mulher a ocupar o cargo de prefeita na América Latina. “Ela é bastante conhecida no Rio Grande do Norte, mas praticamente desconhecida no restante do país”, diz Gerardo Júnior, professor de história do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), campus de Mossoró. Viúva aos 22 anos e grávida, Soriano ganhou notoriedade local ao assumir o comando da fazenda do marido e ingressar na política após conhecer a bióloga carioca Bertha Lutz (1894-1976), uma das primeiras ativistas pelo feminismo no país. 

“Em 1929, ela se candidatou à prefeitura do município de Lages e foi eleita com 60% dos votos, em uma época em que as mulheres não tinham o direito de votar”, conta Júnior, que supervisionou as 65 equipes do IFRN que participaram da elaboração do dicionário. Dessas, 18 produziram verbetes sobre Alzira – todos publicados no portal.

“Muitos grupos optaram por pesquisar o mesmo personagem, e nós não vetamos isso”, observa Meneguello. “A repetição de verbetes mostra que a biografia de uma mesma pessoa pode ser narrada a partir de diferentes perspectivas críticas. Foi uma oportunidade de ensinar aos estudantes que a escrita da história não tem uma versão definitiva.”

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