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Mateus Aleluia se equilibra entre céu e terra no álbum Olorum

Disco tempera textura afro-barroca com sonoridade contemporânea e toda espiritualidade do artista nascido em Cachoeira. Axé, Seu Mateus!

03 de agosto - 2020 às 09h24

Resenha de álbum Olorum G1BA / Gravadora: Selo Sesc

♪ Oriundo da interiorana cidade de Cachoeira (BA), reduto da ancestralidade africana em que emergiu o grupo Os Tincoãs, Mateus Aleluia reacende o fogo sagrado das divindades de matriz afro-brasileira no terceiro álbum solo do artista, Olorum, disponível a partir de sexta-feira, 24 de julho, na plataforma Sesc digital, com 12 músicas assinadas somente pelo cantor, compositor e músico baiano.A centelha divina brilha no canto rústico e grave de Aleluia quando o artista de quase 77 anos – nascido em setembro de 1943 – roga ao orixá Olorum, na música que abre e batiza o disco produzido por Ronaldo Evangelista, que saia do reino e venha ver “o povo cansado de sofrer”. Olorum, na mitologia iorubá, é a entidade que rege a humanidade e os próprios orixás com poder supremo.

De início conduzida pelo toque do violão de Aleluia, a faixa-título Olorum culmina com o baticum dos atabaques evocativos da África, matriz da música do artista. Esse batuque sustenta a louvação a Xangô – deus do fogo e da justiça – feita em Kawô Kabiyesilê, tema de arquitetura afro-barroca friccionada pelas cordas do violoncelo de Filipe Massumi.

Disco gravado em dezembro de 2018 e ao longo de 2019, Olorum soa coerente com os álbuns antecessores Cinco sentidos (2010) e Fogueira doce (2017). Integrante da segunda e mais relevante formação do grupo Os Tincoãs, Mateus Aleluia jamais se desvia do terreno afro-barroco em que assentou obra pautada por alta carga de espiritualidade e de negritude, explicitada com justificado orgulho em Filho de rei.

“Eu sou do Ilê do Malê / Minha dança é de negro / Quero ver meu pé sangrar / Quebro meu cativeiro / Com um canto que é milenar”, celebra Aleluia em Filho de rei, em sentença de liberdade reforçada pelo coro das vozes das Pastoras do Rosário. Contudo, há clima mais fluido na ambientação de músicas como o samba Amarelou e Canta sabiá, faixa também encorpada com as vozes das Pastoras do Rosário. É como se, nessas músicas, Aleluia soasse ligeiramente “pop” e contemporâneo dentro do universo musical em que está confinado na medida em que um artista da estirpe dele possa se mostrar “pop” e contemporâneo.

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